Solidariedade

SOLIDARIEDADE

Disseram-me, certa vez, que em cada sorriso de criança há um anjo. Que em cada ato de generosidade há um sim à vida. E que em cada ato de justiça há um não ao desprezo à humanidade: um não à indignidade da mulher e do homem, da velha, do jovem; à exploração da criança, da menina, do velho; ao assassinato do que há de mais humano no mundo: a liberdade. E esse não, potente como o sim, persistente, esperançoso, paciente, esgarça, não desiste, resiste, permanece, retira a ferros, abocanhando toda opressão e todo o mal até ao mais exasperado dos sentidos. E fala, e conversa, e grita até que a língua se desfaça e refaça segundo o instinto dos sons dos tambores líricos, humanos, divinos. E dança, e toca, e canta, e ri até que acordem os girassóis e façam cair a lua. E incendeia à noite a cidade com a música que faz acordar os homens, fortalecer as mulheres e embalar as crianças. E rega, e semeia, e faz chover até que as florestas ardam de flores os desertos de todos os tipos. E denuncia, faz, anuncia e anda até que o Anjo desça e suspenda na Terra a criança à paz.*


É um sentimento real a solidariedade. Verdadeiro, humano. É uma ação. Um caminhar movido por quem percebe na pele, na empatia, no mundo, um mundo que absolutamente não é o nosso, como mais ou menos disse Criolo. É a solidariedade como responsabilidade. Responsabilidade coletiva, comunitária, pela dignidade da vida humana. Cotidiana, local, global. Um ato movido pelo sentido que suporta, preserva, sustenta a persistência, a perseverança, a esperança, paciente, caminha de mãos dadas e não se curva, não mantém, indiferente, o que não faz sentido, não aceita, resiste, constrói. Não obedece, permanece vivo! Não controla, ampara, defende, ancora, enfrenta inclusive o tempo.


É o encontro das lutas, dos gritos, das fraturas, das brechas feitas em meio ao real que possibilitam a vida; dos saberes e de sua ecologia embrenhada nas realidades; das pedagogias, metodologias que possibilitam existências; dos conhecimentos que vão sendo construídos, partilhados, em meio às lutas por viver. São os encontros indignados das consciências das gentes que suportam nos ombros o peso da estupidez humana e podem, querem, buscam observar, nessa estupidez, os seus arquitetos, como se movem, o que fazem, como fazem e o que contam; como mentem e como matam e, dos cantos até então ocultos, castigados, em meio ao perverso, emergem, denunciam, anunciam e constroem.


É quando a solidariedade permite os encontros. E quando os encontros se convertem em força política, social, cultural, humana. E dessa força se constrói justiça material e a criança, sorridente, brinca, lê, come, joga e a mãe habita, e o pai se alegra. E o ser humano vive a sua cultura, reza o seu sagrado, decide sobre suas políticas, conhece, constrói, reconstrói a sua história, o seu espaço, a sua identidade. Há de haver persistência, humildade, cuidado. Num mundo ao contrário, tal qual o nosso, do desespero e da guerra, da fome, do capital e da miséria, da estupidez, do egoísmo e da indiferença, a solidariedade é a ação que dela depende, por tantas vezes, a vida, a possibilidade de viver bem, a possibilidade da construção de algo que nos faça sentido em um mundo sem sentido em muitos sentidos.


Há de ser encontrado o comum na essência dos atos, nos motivos dos sorrisos, nos sentidos das falas, nos porquês das palavras. Na simplicidade do sincero mesmo que se desenhe estranho, confuso, errado a alguém. Na confiança. Na inocência da criança, na rebeldia do jovem, no amor da mãe, na bênção da avó. Na esperança. No íntimo dos movimentos… Nos silêncios…. Na denúncia… Naquilo que move a ação… Experimenta, quem sabe, expressar, que é para a gente tentar encontrar, no íntimo das nossas ações, o elo que nos permita fortalecer em conjunto. É que como escreveu certa vez um amigo, a luta faz mais sentido quando nos olhamos nos olhos e podemos nos abraçar. E a gente, na cidade de São Miguel Arcanjo, interior de São Paulo, Brasil, a Cidade do Anjo, submersa numa das realidades mais perversas do nosso país, precisa desse abraço para poder seguir lutando com cada vez mais força.

Autor

Tiago Miguel Knob é Diretor Executivo do OPOCA. Vice-Presidente do Instituto Homo Serviens (SC). Doutor pelo Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, Portugal, e Mestre em Ciências pela USP, São Paulo. Pesquisador Convidado do PerMaré, Faculdade de Belas Artes, Universidade de Lisboa, Portugal.

Referências e sugestões de leitura


*As frases em itálico do primeiro parágrafo são do livro Ultimato (Ed. Maldoror, Lisboa 2018) do poeta Diogo Vaz Pinto.

Observatório Popular Cidade do Anjo: www.opoca.org

Knob, Tiago Miguel (2018), A Vida Delas e Deles, a Nossa, na Cidade do Anjo: uma utopia crítica pós-colonial das gentes do cotidiano. Tese de doutoramento desenvolvida no Programa Pós-colonialismos e cidadania global do Centro de Estudos Socias da Universidade de Coimbra, apresentada à Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Como citar: Knob, Tiago Miguel (2019), “Solidariedade”, Dicionário Alice. Consultado a 15.03.24, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=1&entry=24554. ISBN: 978-989-8847-08-9

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